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quarta-feira, 3 junho, 2026

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Show milionário, cidade carente: Araruama e o custo do turismo de um dia

Recentemente, o debate sobre os eventos milionários promovidos por prefeituras da Região dos Lagos voltou ao centro das atenções. Shows com cachês que chegam à casa de R$ 1 milhão têm sido anunciados como estratégia para atrair turistas, mas levantam uma pergunta essencial: que tipo de turismo está sendo incentivado e qual o retorno real para a cidade?

Araruama se tornou um exemplo emblemático desse modelo. A contratação de um artista como Luan Santana, cujo cachê gira em torno de R$ 1 milhão, não se resume apenas ao valor pago pelo show. Como é praxe nesse tipo de contrato, o município ainda assume custos adicionais com logística, estrutura, camarins, alimentação, transporte e equipe técnica. O investimento final, portanto, ultrapassa com folga o valor inicialmente divulgado.

Diante disso, é inevitável questionar: o que Araruama oferece ao turista para que ele permaneça na cidade além das poucas horas de um espetáculo? Qual é a estratégia para transformar esse evento pontual em desenvolvimento econômico, geração de renda contínua ou fortalecimento do turismo local?

O valor investido em um único artista poderia ser aplicado em uma programação mais extensa, distribuída ao longo do ano, com ações de promoção turística, incentivo à cultura local, eventos menores e contínuos e melhoria da infraestrutura urbana. Medidas assim teriam potencial de atrair visitantes que permanecem, consomem no comércio, utilizam hotéis e pousadas e movimentam a economia de forma mais equilibrada.

A realidade urbana do município amplia ainda mais o contraste. Araruama é frequentemente apontada por moradores como uma “cidade de fachada”, onde o centro conta com pavimentação e serviços, enquanto grande parte dos bairros sofre com a ausência de asfalto e saneamento básico. O problema é tão evidente que motoristas de aplicativo relatam preferência por trabalhar em cidades vizinhas, como Saquarema, simplesmente pela melhor condição das vias, o que reduz custos de manutenção dos veículos.

Nesse contexto, o uso de recursos públicos para um evento de poucas horas desperta um debate legítimo sobre prioridades. Vale mais investir em um show milionário ou aplicar esse valor em políticas públicas que beneficiem a população de forma duradoura e também fortaleçam o turismo de maneira sustentável?

O modelo adotado favorece o chamado turismo day use: visitantes que chegam, assistem ao espetáculo, não consomem de forma significativa, não se hospedam e deixam a cidade logo após o evento. O saldo é uma cidade cheia por algumas horas, custos elevados para o poder público e pouco ou nenhum retorno econômico estrutural.

Eventos culturais são importantes e devem fazer parte da agenda municipal. O problema não está na cultura ou na música, mas na ausência de planejamento estratégico, transparência e visão de longo prazo. Quando o investimento público não deixa legado, não fortalece a economia local e não melhora a vida dos moradores, ele precisa ser questionado.

Mais do que grandes nomes no palco, Araruama precisa decidir se quer apostar em espetáculos caros e efêmeros ou em políticas que construam, de fato, uma cidade mais estruturada, atrativa e justa para quem vive nela e para quem a visita.

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