A recente reportagem de O Globo, intitulada “Na onda do petróleo — Saquarema tem o maior PIB per capita do país, mas renda de moradores é baixa”, não apenas expôs uma contradição estatística. Ela escancarou um modelo de desenvolvimento que, apesar da abundância de recursos, falhou em transformar riqueza em prosperidade social.
Saquarema tornou-se uma das cidades mais ricas do Brasil no papel. Os royalties do petróleo inflaram os cofres públicos, elevaram o PIB per capita e colocaram o município em posição de destaque nos rankings nacionais. No entanto, para a maioria da população, essa riqueza nunca se traduziu em melhoria consistente de renda, oportunidades ou autonomia econômica.
O município passou a viver um processo silencioso de estatização do trabalho. Grande parte dos empregos depende, direta ou indiretamente, da Prefeitura. Essa dependência compromete a cultura empreendedora, limita a iniciativa privada e induz a população a uma lógica de sobrevivência baseada em vínculos públicos temporários, e não em projetos próprios, empresas ou inovação.
Paralelamente, os investimentos priorizaram obras de grande impacto visual, eventos caros e contratações artísticas externas, enquanto áreas estruturais permaneceram negligenciadas. O parque industrial de Sampaio Corrêa, por exemplo, segue sem infraestrutura adequada, sem vias de acesso compatíveis, sem política real de atração de empresas e sem integração logística.
Nenhuma política consistente foi implementada para estimular o desenvolvimento empresarial ou industrial. O resultado é uma economia concentrada, frágil e dependente de uma única fonte de arrecadação: os royalties, que são finitos.
Ao mesmo tempo, Saquarema desperdiça outro ativo estratégico: seu potencial turístico, cultural e histórico. O centro da cidade poderia ser um polo de turismo internacional, se houvesse uma política séria de preservação patrimonial aliada a incentivos econômicos. Preservar não é engessar. Preservar é valorizar.
Com planejamento, seria possível estimular moradores e comerciantes a restaurarem fachadas, respeitarem a identidade arquitetônica e investirem em usos turísticos e culturais, por meio de descontos no IPTU, incentivos fiscais e linhas de crédito. Isso geraria emprego, renda, pertencimento e projeção internacional.
Saquarema precisa decidir se continuará sendo apenas uma cidade rica em arrecadação ou se passará a ser, de fato, uma cidade rica em oportunidades.
O petróleo não é eterno. O tempo perdido também não é recuperável.
A matéria de O Globo não acusa. Ela alerta. Cabe agora ao poder público, à sociedade civil e às lideranças locais decidirem se Saquarema seguirá surfando apenas na onda do petróleo — ou se finalmente aprenderá a construir seu próprio futuro.
Luiz Camões
Jornalista
