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quarta-feira, 3 junho, 2026

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Quando o ensaio vira coadjuvante: o pré-carnaval de Saquarema e as escolhas que afastam o público

Não é por acaso que, mesmo em alta temporada, o pré-carnaval de Saquarema vem enfrentando dificuldades para atingir o público previsto.

A cidade está cheia, turistas circulam e moradores buscam opções de lazer. Ainda assim, ao contrário do que ocorre em diversas cidades, inclusive na capital, os eventos ligados ao Carnaval seguem registrando público abaixo do esperado em Saquarema. Não se trata de falta de interesse popular, mas de escolhas equivocadas na forma como esses eventos vêm sendo conduzidos.

Há diferenças claras no pensamento de quem está à frente dos blocos. Muitos ainda insistem em aplicar ao Carnaval uma lógica de “grandes eventos”, onde a atração principal fica por último. Esse modelo, no entanto, nunca funcionou no ambiente carnavalesco e só gera desgaste, tanto nos possíveis frequentadores, que deixam de retornar, quanto nos próprios componentes.

Quando a atração principal perde o protagonismo

A redação do Conexão Lagos realizou um breve levantamento, com conversas diretas com presidentes de agremiações e pessoas ligadas ao meio carnavalesco local, e identificou uma insatisfação generalizada quanto à valorização das agremiações pelo poder público. O ponto curioso e preocupante, é que muitos desses mesmos dirigentes adotam práticas que acabam enfraquecendo o Carnaval que dizem defender.

Entre elas, chama atenção o chamado “modismo” de misturar estilos musicais, especialmente o pagode, antes dos ensaios de blocos. Com isso, os verdadeiros protagonistas da festa que se aproxima, a bateria com seus ritmistas, são empurrados  para horários tardios, como se fossem atração secundária.

E há um detalhe que precisa ser dito com clareza: as baterias, na maioria dos casos, nem chegam a ensaiar de fato. O que se vê são apresentações soltas, com sambas antigos e atuais, sem repetição, sem correção e, principalmente, sem identidade própria.

Em muitos blocos, o samba-enredo é divulgado poucos dias antes do Carnaval. Não há tempo para criar pertencimento, para que a população cante junto, para que o turista reconheça aquele bloco como algo único. Sem ensaio exclusivo, sem construção musical consistente, perde-se a chance de transformar a bateria em um verdadeiro espetáculo.

Cansaço que não vem do toque, mas da espera

O reflexo disso é visível. Já no primeiro intervalo dos chamados “ensaios de bateria”, ritmistas demonstram cansaço, não por tocar demais, mas por esperar demais, enquanto outro ritmo toma o espaço que deveria ser exclusivo do samba-enredo.

Isso frustra quem está ali pelo ensaio, sejam componentes, sejam turistas que buscaram exatamente o que foi anunciado: ensaio de bateria. O ensaio, que deveria alinhar, corrigir e fortalecer o bloco, vira apenas mais um item perdido na programação.

Públicos diferentes, expectativas frustradas

É importante reforçar: não se trata de ser contra o o estilo musical pagode. O pagode tem seu espaço, seu público e acontece durante todo o ano. O problema é tentar encaixá-lo, à força, em um período que tem ou deveria ter identidade própria.

Quem procura ensaio de bloco no pré-carnaval busca vivência carnavalesca, repetição, intensidade, gente sambando, fantasiada e envolvida com o clima da festa. Ao confundir públicos, o evento perde força de todos os lados.

– O público do pagode não se conecta com o ensaio e deixa o local.
– O público do Carnaval se sente deslocado e vai embora ou já consumiu tudo o que tinha para consumir enquanto aguardava a bateria; quando ela finalmente entra, já é tarde, o público está cansado ou sem recursos para continuar.
– Os próprios ritmistas se desgastam pela espera excessiva, pelo tempo parados sem saber quando irão tocar; muitos, inclusive, abandonam seus instrumentos já no primeiro intervalo.

Assim, nem culturalmente, nem financeiramente, a conta fecha.

A pergunta que precisa ser feita

Aos presidentes e organizadores, resta muitas vezes a reclamação:
“É difícil colocar o Carnaval na rua.”

Mas a pergunta que precisa ser feita é outra: o primeiro erro não começa dentro de casa?

Se os próprios organizadores não valorizam a época do ano, não estruturam ensaios sérios e não colocam a bateria, a alma do bloco, no centro do processo, por que o público faria isso?
E mais: por que o poder público investiria em algo que nem seus representantes diretos parecem tratar como prioridade?

Carnaval forte não nasce de discurso, nem de eventos genéricos. Ele nasce de planejamento, identidade, valorização da mão de obra e respeito à cultura. Retorno financeiro não vem apenas de “colocar o bloco na rua”, mas da qualidade do que é apresentado, da experiência entregue e da capacidade de fidelizar público.

Pagode tem o ano todo.
Carnaval, não.

Repaginar o Carnaval de Saquarema passa por torná-lo lucrativo para toda a cadeia do turismo, atrativo para o visitante e motivo de orgulho para quem faz parte. Mas isso só será possível quando os próprios responsáveis pelos blocos compreenderem o tamanho da importância que carregam, para a cultura local, para o desenvolvimento econômico e para o turista que escolhe a cidade justamente em busca dessa festa. Todos ganham!

Enquanto essa mudança não partir de dentro, Saquarema seguirá vendo pré-carnavais esvaziados, ritmistas desmotivados e uma festa que poderia ser muito maior sendo tratada como coadjuvante de si mesma. Não por acaso, muitos ritmistas já tendem a aparecer apenas no dia do desfile: sem ensaio real e tratados como atração secundária, encontram no Carnaval propriamente dito o único momento em que tocam para o público certo, fazem o que gostam e são valorizados.

Nota do Editor

O Conexão Lagos é, e sempre será, um dos maiores apoiadores do Carnaval e da cultura popular em Saquarema e em toda a região da Costa do Sol. Justamente por esse compromisso, cabe a este veículo buscar informações, ouvir os envolvidos, realizar levantamentos e provocar reflexões que contribuam para o fortalecimento de um turismo de qualidade e culturalmente responsável. Esta matéria deve ser encarada como um alerta e uma crítica construtiva. O objetivo não é apontar culpados, mas incentivar organizadores, agremiações e poder público a repensarem formatos, valorizarem seus próprios protagonistas e compreenderem o Carnaval como um ativo cultural, social e turístico fundamental para o desenvolvimento da região.


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