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quarta-feira, 3 junho, 2026

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A descaracterização do Carnaval na Região da Costa do Sol

O Carnaval sempre foi, historicamente, um dos maiores motores culturais, sociais e econômicos do Brasil. Na Região da Costa do Sol, no entanto, o que se observa nos últimos anos é um processo gradual e preocupante de descaracterização da festa popular, especialmente no que diz respeito aos blocos carnavalescos e aos ensaios que, tradicionalmente, aqueciam as cidades desde os primeiros dias de janeiro.

Os ensaios de blocos, as concentrações espontâneas de foliões, a venda de camisas, fantasias, bebidas e o ambiente familiar que reunia pessoas de todas as idades e ocupava bairros inteiros vêm, pouco a pouco, cedendo espaço a eventos que dialogam pouco com a essência do Carnaval. Em seu lugar, cresce uma agenda dominada por pagode, sertanejo e outros estilos musicais que, embora legítimos e populares, não representam o núcleo da manifestação carnavalesca.

Esse movimento (estilos musicais) se intensifica justamente no período em que o Carnaval deveria ganhar protagonismo. O verão, especialmente no mês de janeiro, passou a ser ocupado por grandes eventos musicais desses segmentos, muitos deles com investimentos que chegam a cifras milionárias. Enquanto isso, o Carnaval, que exige planejamento antecipado, diálogo com os blocos e investimento contínuo, proporcionalmente baixo se comparado aos valores aplicados nesses eventos de verão sem contexto carnavalesco, acaba sendo tratado como secundário. Decisões fundamentais ficam para a última hora, como autorizações atrasadas, estruturas básicas insuficientes e, em alguns casos, ausência total de recursos para uma festa que, se bem administrada, tem potencial de atrair turistas do Brasil e do mundo.

O contraste é evidente. Milhões são destinados a atrações que se apresentam por duas ou três horas em um único dia, enquanto os blocos carnavalescos, que mantêm viva a cultura popular durante semanas ou até meses, do primeiro ensaio ao último dia de folia, recebem investimentos inexistentes ou meramente simbólicos. Muitas vezes, valores anunciados publicamente sequer chegam a quem produz a festa. E quando chegam, são liberados às vésperas do Carnaval, o que pouco contribui para planejamento, fortalecimento ou incentivo futuro. Não se trata apenas de dinheiro, mas de reconhecimento, organização e respeito a quem sustenta a tradição e movimenta o turismo local.

Outro ponto sensível está na forma como alguns eventos vêm sendo divulgados. Em diversos municípios, o termo “ensaio de bloco” passou a ser utilizado como estratégia de promoção, quando, na prática, o que ocorre é uma longa programação de pagode, partido alto ou até música eletrônica. A bateria, verdadeiro coração do Carnaval e tema do dia, acaba relegada ao final da noite, após horas de espera. O que deveria ser protagonista se torna coadjuvante.

Essa inversão não é apenas simbólica. Ela altera o perfil do público, desgasta os ritmistas e desvaloriza quem toca por amor ao Carnaval. Músicos que empunham tamborins, surdos e repiques acabam se apresentando em horários tardios, quando parte do público já foi embora ou está exausta. Ao contrário do que alguns organizadores imaginam, essa prática não fortalece o evento. Ela esvazia o sentido do ensaio e afasta justamente quem mantém a chama da festa acesa.

É importante destacar que não há cobrança de ingressos nem segregação financeira nesses eventos. Os espaços, em sua maioria, são gratuitos. O que ocorre é uma segregação cultural indireta. Ao rotular como Carnaval algo que não é, o público atraído passa a ser outro, mais alinhado ao estilo musical proposto, afastando foliões que buscam a batucada, o bloco e a experiência coletiva que caracterizam a festa popular.

Em Cabo Frio, por exemplo, o modelo adotado privilegia os trios elétricos, seguindo padrões inspirados nos carnavais de Salvador e São Paulo. Trata-se de uma escolha clara, com público fiel e compatível com a proposta apresentada.

A comparação com o Rio de Janeiro evidencia ainda mais o cenário. Na capital, os ensaios de blocos são, de fato, ensaios. Do início ao fim, recebe apoio, autorização, o bloco ocupa a rua com seus ritmistas, comandando a festa e atraindo milhares de foliões. O público vai pelo bloco, pela bateria, pelo encontro, para festejar. O protagonismo é inequívoco, e a identidade carnavalesca é preservada.

Na Costa do Sol, cada município parece seguir um caminho próprio, nem sempre alinhado à tradição do Carnaval de rua. Cabo Frio aposta fortemente nos trios elétricos. Saquarema fortalece rodas de samba e pagode com o título de ensaios de bloco. Araruama, São Pedro da Aldeia e Iguaba investindo em eventos culturais diversos, mas sem agenda para o carnaval as vésperas do carnaval. O resultado é um Carnaval fragmentado na região, sem identidade regional clara e com pouca valorização da base popular. Já Maricá, investe pesado no Carnaval da escola de samba local e sinaliza incentivos para uma possível reorganização do papel dos blocos, buscando ser o epicentro do carnaval na Baixada Litorânea.

O Carnaval não é apenas entretenimento. Ele movimenta o turismo, mantém pousadas e hotéis funcionando, gera emprego, renda e pertencimento. Quando bem planejado, pode oferecer retorno financeiro e social na mesma proporção, muitas vezes com investimentos significativamente menores do que os destinados a grandes shows de um único dia e fora de época.

A pergunta que fica é inevitável. Estamos assistindo ao fim dos ensaios de bloco na Região da Costa do Sol, o fim do pré-carnaval e de uma estratégia de turismo sustentável e de baixo custo para o primeiro e até o segundo mês do ano? Ou ainda há tempo de resgatar a essência do Carnaval, recolocando os ritmistas, os blocos e a festa popular no centro da agenda cultural e turística?

Mais do que escolher estilos musicais, é preciso definir qual Carnaval a região quer apresentar e para quem. Valorizar a essência da festa é resgatar os blocos de família, os blocos de foliões e compreender, de forma estratégica, que tipo de turismo se deseja atrair e fortalecer em cada cidade.

Editorial Conexão Lagos

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